O dia 11 de setembro definitivamente não é bem-vindo no calendário americano — e talvez no calendário mundial. A truculência peculiar do ex-presidente Donald Trump seria capaz de propor até a retirada da data do calendário, alegando que ela traz má sorte para os Estados Unidos e para o mundo, já que ele se comporta como o xerife global. No mínimo, uma proposta para transformar o 11 de setembro em “Dia do Repúdio Nacional Americano” poderia figurar entre suas ideias controversas.
Na terça-feira, 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu, em choque, ao maior ataque terrorista da história moderna. Dezenove homens sequestraram quatro aviões comerciais. Dois deles se chocaram contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, matando 2.753 pessoas. O terceiro atingiu o Pentágono, matando outras 184. O quarto caiu em um campo na Pensilvânia, matando os 40 passageiros e tripulantes a bordo. O impacto foi tão duradouro que, mais de duas décadas depois, cerca de 50 mil pessoas — sobreviventes ou expostas aos destroços — foram diagnosticadas com câncer, como consequência da contaminação.
Curiosamente, foi exatamente em 11 de setembro de 1609 que Henry Hudson ancorou sua caravela na baía que daria origem à cidade de Nova York, onde séculos depois se erigiriam as Torres Gêmeas — símbolo da riqueza e do apogeu econômico americano — e que se tornariam o epicentro da dor e da fumaça.
Em 1297, 11 de setembro – a Batalha de Stirling Bridge marcou a luta dos escoceses contra o domínio inglês, com milhares de mortes.
Em 1926, também num 11 de setembro, Benito Mussolini sofreu um atentado a bomba em Roma. O ataque matou oito pessoas, mas o ditador fascista escapou ileso.
Em 11 de setembro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, as tropas aliadas lançaram um bombardeio massivo sobre a cidade alemã de Darmstadt. Foram 10 mil mortos, e 70% da cidade viraram pó.
Já no Brasil, em 11 de setembro de 1956, foi inaugurada a Casa de Detenção do Carandiru, uma das poucas obras da gestão de Jânio Quadros. Projetada para 3.250 presos, tornou-se símbolo da superlotação e da tragédia prisional brasileira. Décadas depois, seria palco do massacre de 1992, em que 111 detentos foram mortos.
Mas o 11 de setembro não carrega apenas a tragédia americana. Na mesma data, em 1973, o general Augusto Pinochet deu um golpe militar no Chile, derrubando o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, que acabou morto no Palácio La Moneda. Foi o início de uma das ditaduras mais violentas da América Latina.
Em 11 de setembro de 1992, o furacão Iniki devastou a ilha de Kauai, no Havaí. Com ventos de 190 km/h, causou US$ 3 bilhões em prejuízos, destruiu 14 mil casas e matou sete pessoas.
Em Portugal, também em uma quarta-feira, 11 de setembro, um trem com destino a Paris colidiu com outro comboio que seguia para Coimbra. O acidente matou dezenas de pessoas. Há registros contraditórios sobre o número de vítimas, mas foi um dos piores desastres ferroviários do país. A tragédia foi agravada pelas chamas, que carbonizaram muitos corpos, dificultando a identificação.
E para tristeza profunda — ou quase depressão — de Donald Trump, o 11 de setembro também virou símbolo de derrota para sua ala política conservadora: em 11 de setembro de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado ideológico no Brasil, foi condenado pelo STF por cinco crimes, incluindo tentativa de golpe de Estado e violação do sistema democrático. A decisão o tornou inelegível, marcando uma queda vertiginosa na extrema direita brasileira.
Me casei em setembro, graças a Deus, no dia 30. Vivo as maravilhas de um único casamento que me deu dois filhos e dois netos. Não sou de seguir superstições, nem acredito que esses eventos trágicos de 11 de setembro foram predestinados. No entanto, há quem evite marcar eventos importantes nesse dia. Mulheres grávidas torcem para não darem à luz no dia 11 de setembro. Aniversários, casamentos, viagens de avião — tudo parece ser evitado quando o calendário aponta esse número.
E afinal, o que fazer com esse dia?
Em suma, o 11 de setembro é muito mais do que uma data marcada pela dor: é um lembrete poderoso de que a história humana tem suas repetições, suas coincidências e seus momentos que nos obrigam a olhar para dentro. Embora muitos desses eventos revelem o pior do poder humano — violência, intolerância, desastre — também nos mostram a necessidade de rever nossos conceitos, de viver em unidade, de aprender a amar e nunca odiar, de conviver com os antagônicos, de suportar as diferenças e, por vezes, apesar das circunstâncias, cultivar a paz com todos.
Que essa data nos inspire não apenas o repúdio, mas também a responsabilidade — de cuidar uns dos outros, de valorizar a dignidade, a solidariedade e a democracia — para que o amanhã nunca mais seja marcado apenas pela tragédia.









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