Joabe, Adonias e Malafaia — Entre as pontas do altar e a caneta do Xandão

Quando a fé não serve de refúgio para conspiradores

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No Antigo Testamento, o Altar do Tabernáculo era utilizado como local de substituição de culpa. Nele, o sacerdote sacrificava um cordeiro e derramava o sangue do animal sobre a cabeça do pecador. O sangue da ovelha, ao ser colhido, era colocado nas quatro pontas do altar e, em seguida, aspergido sobre o réu. Assim, a culpa era expiada e o pecador recebia o perdão.
Agora, imagine a lei mosaica ainda vigente e aplicada literalmente aos 8 bilhões de habitantes da Terra. Seriam necessários 8 bilhões de cordeiros sacrificados em um só “dia da expiação” — um “feriadão sangrento” que faria até o Greenpeace jogar a toalha e desistir da defesa da biodiversidade. Mas, graças ao amor de Deus declarado em João 3:16, o altar de quatro pontas foi substituído pela cruz do meio, e o cordeiro substituído por Jesus. Um único sacrifício por todos os pecadores. O sangue de Cristo derramado na cruz apaga culpas e livra da sentença de morte a humanidade em pecado. Mas — detalhe essencial — o pecador tem que querer, crer e aceitar a Cristo como o Cordeiro de Deus.
Além do aspecto remidor, o altar funcionava também como local de refúgio. Quem estava condenado ou perseguido corria, agarrava-se às pontas do altar e, enquanto ali permanecesse, a sentença não podia ser executada. Era o “habeas corpus” da época — não garantia absolvição, mas suspendia a execução até segunda ordem.
Foi inevitável lembrar disso ao assistir ao imbróglio de Silas Malafaia — e, propositalmente, aqui deixo de lado o título de pastor, porque me parece cada vez mais inadequado aplicá-lo a alguém que usa o púlpito como palanque, a fé como mercadoria e a Bíblia como regra eleitoral.
Adonias e Joabe (1 Reis 2) também tentaram se salvar agarrando-se ao altar. Adonias rebelou-se contra a ordem estabelecida por Deus e quis usurpar o trono de Davi. Reuniu o povo e fez a festa da insurreição, mas Davi, paralelamente, deu posse a Salomão. Com medo, Adonias se refugia no Tabernáculo, agarrando-se às pontas do altar para se proteger. Nesse primeiro momento, foi poupado, mas depois, traiçoeiramente, idealizou tomar o trono pela via “amorosa” e acabou condenado à morte.
Joabe, cúmplice de conspiração e responsável por assassinatos premeditados, informado da morte de Adonias, também se agarra às pontas do altar. Após resistir à ordem do rei para sair da tenda, é morto ali mesmo, provando que o altar não protegia réus de homicídios ou de insurreição contra a ordem estabelecida por Deus.
Hoje, quem parece procurar desesperadamente pelas “pontas do altar” é Malafaia. Seu passaporte, celular e até uma caderneta de anotações foram apreendidos pela Polícia Federal, que encontrou provas de que ele se comportava como articulador e conselheiro de Bolsonaro na prática de crimes já em análise no STF. Para piorar, os áudios de suas conversas com o ex-presidente — recheados de palavrões, chocaram sobremodo a comunidade evangélica.
Encurralado moralmente, Malafaia agora tenta se agarrar ao “altar” dos colegas pastores, pedindo que saiam em sua defesa. Irrita-se com aqueles que se recusam a assinar manifestos ou gravar vídeos pró-Silas. Sua última cartada pode ser o “altar” da Praça dos Três Poderes. Em 2023, quando do julgamento do processo de cassação dos direitos políticos de Bolsonaro, Malafaia prometeu entrar em greve de fome em defesa do mito:
“Não aceitarei cassação nenhuma dia 22, querem impedir esse varão de se candidatar para ajudar os pobres desse país, como faz há mais de 30 anos, não aceitarei, farei uma greve de fome feroz, posso até morrer, mas não vão cassar Bolsonaro…”
(Perfil Na Mira do Repórter, no Twitter).

Não cumpriu a palavra, mas só em falar da disposição de morrer por Bolsonaro já revela um plano maquiavélico — um espetáculo anunciado, mistura de reality show e procissão cívica — para atrair holofotes da mídia nacional e internacional. Uma nítida transformação da fé em roteiro de Netflix.
O problema é que esse comportamento não agrada à maioria dos evangélicos. A cada fala, Malafaia soa menos como líder espiritual e mais como um caçador de confusão, fabricante de crises e gerador de escândalos. Sua fala mostra sua capacidade de escolha em trocar a família, a igreja, os amigos, o ministério — e até Deus — por Bolsonaro.
E aqui reside a tragédia: declarar que vai morrer de fome na praça pública é suicídio. E suicídio, na fé cristã, é a negação do dom da vida dado por Deus. Quem renuncia à vida não terá o destino preparado por Jesus em João 14.
O apelo que a comunidade cristã faz a Silas Malafaia é que largue as pontas desse altar político apodrecido, se arrependa e volte ao altar do ministério pastoral — se é que sua vocação ainda não derreteu na frigideira quente do seu temperamento.

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