A IGREJA PRECISA DE NOVA REFORMA

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Benedito Dias

A pergunta que não quer calar é: Qual é a igreja de Cristo?

Eu tinha cerca de 12 anos quando me converti ao evangelho, lá na zona rural do Vale do Mucuri, nordeste de Minas Gerais. A missionária que evangelizou minha família andava a pé por estradas empoeiradas, sob o sol causticante, cerca de 15 km até chegar à fazenda onde morávamos. Era um culto simples: sem som, sem microfones, sem instrumentos musicais, sem multimídia, sem telão de LED, sem campanha de ofertas e sem dízimos forçados. O que havia era amor e responsabilidade pelo evangelismo. Isso durou até nossa mudança para o norte do Brasil.

Naquela época, era comum ouvir discussões sobre “qual é a verdadeira igreja de Cristo”. Quem estava certo? Quem estava mais certo? Quem, do ponto de vista bíblico, estava totalmente errado? Batistas, presbiterianos, assembleianos… estes últimos, aliás, eram “a bola da vez”. A Assembleia de Deus crescia numa velocidade impressionante. Pastores simples, humildes, sem ganância, absolutamente zelosos pela doutrina e pelo ensino da Palavra. A presença de Deus nos cultos era quase palpável.

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Nos anos 70, uma multidão migrava da Igreja Católica para as igrejas evangélicas. E não pense que isso foi tranquilo: ainda havia resquícios do período colonial, quando os cemitérios eram controlados pela Igreja Romana e evangélicos não podiam sepultar seus mortos no mesmo espaço dos católicos. Muitos foram enterrados em quintais, matagais e até em calçadas, porque eram impedidos de um enterro digno. Só a partir do século XIX, com o avanço da influência laica no Estado, os cemitérios foram sendo assumidos pelo poder público.

A igreja evangélica no Brasil sofreu perseguições duras, mas avançou. Quebrou monopólios, transpôs barreiras e destruiu preconceitos. Foi esse movimento que deu origem a novas denominações, mais tarde conhecidas como neopentecostais. O problema é que, junto com o crescimento, vieram os desvios de finalidade: heresias, deturpações do evangelho, ambições pessoais e o famoso “mercado da fé”. O púlpito virou balcão de negócios: “dê tanto e receba tanto”, ou até “100 vezes mais”. Barganha antibíblica travestida de promessa celestial. Quem embarcou nessa canoa só descobriu que ela era furada quando já estava engolindo água.

De uns tempos para cá, a coisa só piorou. Além do mercantilismo da fé, líderes passaram a negociar os próprios fiéis. A política entrou na igreja — não como consciência de cidadania e ética, mas como captação de cargos, privilégios e oportunidades, muitas vezes espúrias. Resultado: a igreja brasileira mergulhou num cenário digno de uma nova reforma.

É oportuno lembrar que há 507 anos – 31 de outubro de 1517 – Lutero, inconformado com as práticas abusivas da Igreja Católica, afixou suas 95 teses na porta da igreja em Wittenberg, Alemanha, dando início à Reforma Protestante. Foi um divisor de águas. A igreja da época estava atolada em práticas antibíblicas. A comercialização de indulgências era quase uma commodity: em vez de arrependimento e oração, o perdão era comprado. Vendiam-se até lotes no céu, lascas da suposta cruz de Jesus e o pelo do jumento em que Cristo teria montado. A fé virou negócio — e o povo, freguês.

E hoje? Não é exagero dizer que boa parte da igreja evangélica repete o mesmo erro. Sim, ainda existem muitos pastores sérios e compromissados com o Reino. Mas na telinha e nas redes sociais, o que mais aparece é gente que, se passou pela cruz, foi só de raspão. Basta ver o senhor Silas Malafaia, que se atolou até o pescoço na lama podre do poder, vive cuspindo ódio em vídeos e ainda consegue seduzir milhares de cristãos. Malafaia se comporta como mercador da fé, negocia os fiéis como quem vende gado em feira agropecuária. Ele se acha dono das ovelhas. Se algum parlamentar evangélico contraria seus interesses, ele usa as redes sociais com requinte de crueldade para desgastá-lo e desmoralizá-lo perante o segmento.

O cenário ficou ainda mais evidente com a onda conservadora: um “conservadorismo da fé” misturado com ideologia política que envenenou os púlpitos. Pregações recheadas de ódio, ressentimento, autoritarismo, intolerância e imposição de ideias. O resultado foi o desrespeito à liberdade de consciência e uma igreja que passou a trilhar por um caminho diferente do traçado por Jesus.

A igreja precisa de uma nova reforma. Não sei quem será o novo Lutero — talvez um simples crente de banco, cansado de tanta palhaçada, mas orientado pelo Espírito Santo —, será o ícone de um despertamento para um grande momento de unidade e fé que antecederá o arrebatamento.

Reforma já. Urgente e necessária.

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