Por Benedito Dias
Nunca imaginei que o Brasil de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, FHC, Lula e Dilma pudesse se dobrar diante de alguém cuja trajetória política se sustenta muito mais no sobrenome do que na própria história.
A gente costuma votar em ideias e currículos. Custei a admitir que Jair Bolsonaro pudesse chegar à Presidência, mas fui percebendo que não seria impossível. Olhei para a juventude de hoje e encontrei poucos que tivessem lido um livro de história.
Hoje, a preocupação é outra: que Flávio Bolsonaro herde esse capital político sem que o país faça o balanço do que representou o governo de seu pai. É esse passado que precisa ser lembrado antes de entregar novamente o futuro à mesma família.
Quem não conhece o passado acaba votando na propaganda que enche os olhos: no bonitinho ou naquele que sabe mentir com mais perfeição. Foi assim com Fernando Collor, o “Caçador de Marajás”. Eleito em 1989, foi afastado em 1992 e renunciou durante o impeachment. Anos depois, aproximou-se do bolsonarismo.
Há setores extremistas da direita que desconhecem a história do país, a escravidão, a Lei Áurea e a predominância das oligarquias conservadoras na política republicana. Não precisamos inventar estatísticas: por décadas, o poder esteve nas mãos de oligarquias rurais, grupos econômicos, militares e elites conservadoras.
E o que muitos desses governos fizeram pelo povo? A lista não esgota a história republicana, mas reúne alguns. Vejamos:
1. Campos Sales (1898–1902): Negociou o Funding Loan com credores estrangeiros, assumindo compromissos fiscais, e consolidou a Política dos Governadores, que fortaleceu as oligarquias estaduais.
2. Rodrigues Alves (1902–1906): Promoveu o “Bota-Abaixo”, que expulsou milhares de pobres do centro do Rio. Na Revolta da Vacina, a repressão foi violenta e medidas sanitárias foram impostas sem diálogo.
3. Washington Luís (1926–1930): Reprimiu o movimento operário: sindicatos foram perseguidos e trabalhadores, presos. A questão social seguia tratada como caso de polícia.
4. Eurico Gaspar Dutra (1946–1951): Colocou o PCB na ilegalidade, cassou os mandatos de seus parlamentares e deixou o salário mínimo sem reajuste durante seu governo, reduzindo seu poder de compra.
5. Castelo Branco (1964–1967): Primeiro presidente da ditadura de 1964, extinguiu os partidos pelo AI-2, criou o SNI e impôs arrocho salarial.
6. Costa e Silva (1967–1969): Em dezembro de 1968, assinou o AI-5, fechou o Congresso e suspendeu o habeas corpus para crimes políticos e contra a segurança nacional. Durante seu governo reprimiu com violência a passeata dos 100 mil. O povo pedia liberdade; o governo respondia com cassetetes e repressão.
7. Emílio Médici (1969–1974): Anos de Chumbo: tortura, censura, desaparecimentos e perseguição. O milagre econômico conviveu com profundas desigualdades e abandono de regiões pobres.
8. Ernesto Geisel (1974–1979): Manteve o AI-5 até sua revogação, em 1979. Durante seu governo, Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho foram mortos no DOI-CODI de São Paulo, sob versões oficiais de suicídio.
9. João Figueiredo (1979–1985): Entregou o país em grave crise econômica, com inflação anual superior a 200%, dívida externa elevada e salário mínimo profundamente desvalorizado.
10. Fernando Collor (1990–1992): Confiscou o dinheiro do povo – bloqueou depósitos e aplicações, inclusive a poupança, causando graves prejuízos. Seu governo terminou em meio a denúncias de corrupção e ao impeachment.
11. Jair Bolsonaro (2019–2022): Negacionismo, enfraquecimento de políticas de segurança alimentar, sigilos de até cem anos e retorno ao Mapa da Fome. Em 2022, a Rede PENSSAN estimou 33,1 milhões de brasileiros passando fome. Mais de 700 mil morreram de Covid-19; especialistas apontaram que uma parcela expressiva dessas mortes poderia ter sido evitada com uma resposta baseada na ciência.
E VARGAS, ONDE FICA?
Vargas é um ponto fora da curva. Foi ditador: chegou ao poder pela Revolução de 1930, fechou o Congresso em 1937, implantou o Estado Novo, criou o DIP e censurou a imprensa. Mas também estruturou boa parte do Brasil atual.
Em seus governos, vieram o salário mínimo, a legislação trabalhista, férias remuneradas, carteira profissional e instituições como CSN, Vale, SENAI e BNDES. No segundo governo, criou a Petrobras. Também foram instituídos o voto secreto, o voto feminino e a Justiça do Trabalho. Deixou encaminhado o projeto da Eletrobras, criada em 1962, por João Goulart.
Autoritário, perseguiu adversários e restringiu liberdades. Mas sua política trabalhista, nacionalista e desenvolvimentista incorporou os trabalhadores ao Estado. Sua agenda aproximou-se mais da esquerda do que do liberalismo conservador. Os demais governos citados não deixaram conjunto de instituições comparável.
Quem desconhece a história dificilmente compreende a geopolítica latino-americana e a relação entre interesses econômicos e ditaduras da região.
Lembrando Sócrates, o perigo não está apenas na ignorância, mas em ignorar a própria ignorância e acreditar que se sabe aquilo que nunca se estudou.
Hoje, o coro é “Lula ladrão”. No debate presidencial de 18 de outubro, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir os sigilos bancário, fiscal e telefônico. O ministro André Mendonça esclareceu que os próprios candidatos podem divulgar essas informações, sem necessidade de autorização judicial.
O eleitor tem direito de conhecer a origem do patrimônio de seus representantes. Transparência não pode ser apenas discurso de campanha.
Se o cidadão não ganhou na loteria, não bamburrou em Serra Pelada, não garimpou diamantes, não recebeu herança milionária nem construiu uma grande empresa, é legítimo perguntar: de onde veio o patrimônio que acumulou?
Para quem nunca leu um livro de história, é difícil até reconhecer que houve uma ditadura militar no Brasil e que os generais que a comandaram representavam um regime autoritário de direita.
É por isso que a história precisa ser estudada. Um povo que não conhece seu passado corre o risco de entregar o futuro a quem vive apenas de propaganda e sobrenome.








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