Por Benedito Dias
Um homem disse a Jesus: “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores”. Jesus respondeu que não tinha onde reclinar a cabeça. Não tinha casa, não tinha posse. O homem desistiu.
Dois mil anos depois, continuamos desistindo pelos mesmos motivos.
Interesses espúrios compõem as manifestações de apoio que podem levar Flávio Bolsonaro à Presidência no próximo domingo. No segmento evangélico, para quem tem pelo menos dois neurônios, o espetáculo é vergonhoso. Em reuniões de obreiros, vídeos e podcasts, pastores e cantores transformaram nossos púlpitos em palanques e o Evangelho da cruz em discurso político da pior qualidade.
O que assusta não é a escolha ideológica. Ninguém pode julgar um pastor por ser de esquerda ou de direita, porque não é isso que define o cristão. Para quem nunca ouviu falar de Revolução Francesa, a demonização da esquerda é vista até na Bíblia.
O que assusta é a mudança hiperbólica de comportamento. Não faz muito tempo, as mulheres da igreja não podiam cortar o cabelo, usar calça ou maquiagem; aliás, até hoje essa rigidez ainda persiste em algumas regiões. Nenhum obreiro subia ao púlpito sem vida consagrada. Uma tarde, no templo vazio, sentei-me por descuido na cadeira do pastor. O filho dele, de forma muito educada, retirou-me da cadeira e me fez sentar em outra, menor.
Um zelo quase idólatra pela cadeira que, hoje, desapareceu. Está todo mundo com Flávio Bolsonaro. Ele entra no templo, senta, deita, discursa, dança; só falta fazer a “arminha” do pai. É de rir, mas não vou rir. Chorar talvez seja a única teologia que nos resta.
A igreja costuma criticar, com razão, seus líderes, cantores e pregadores itinerantes que cobram cachês altíssimos para pregar. São eles os profissionais mais bem pagos do Brasil. Eles trabalham por hora; talvez venha daí a inspiração de Flávio para mudar a jornada do trabalhador de dias por semana (escala 6×1) para horas por semana (sabe lá quantas). Por duas horas de sermão misturado com narrativas, cobram de R$ 5 a R$ 10 mil, livres de passagem, hotel e comida. Vendem o púlpito como quem vende show.
E agora, essa mesma igreja que critica seus líderes por mistura política ou por práticas desleais é a mesma que parece não enxergar esses mesmos líderes apoiando políticos emporcalhados, debochados, envolvidos e investigados por rombos milionários. A crítica perde a razão de ser. Como dizia La Boétie, o oprimido que aplaude o opressor já não sabe por que reclamava.
Por que os líderes religiosos apoiam Flávio Bolsonaro apesar das denúncias? O que define uma denúncia como verdadeira: o lado político ou a prova do ato? Quem é Flávio? Um homem cuja trajetória, segundo o noticiário público, nunca teve relação com o trabalho ordinário. Servidor da Câmara dos Deputados (Brasília) morando e estudando no Rio de Janeiro, eleito deputado estadual aos 21 anos à sombra do capital político do pai, com mandatos marcados por denúncias de proximidade com milicianos, homenagens e proteção. Chegou ao Senado levado pela onda bolsonarista e agora é candidato a presidente por imposição do pai.
O rigor doutrinário, ético e pastoral desapareceu ou só se aplica aos membros?
- Não pagar dízimo é roubo nos termos de Malaquias 3:10, mas ficar com parte do salário do assessor (a famosa rachadinha apontada pelo Ministério Público) não é?
- Não pagar dízimo é roubo, mas abocanhar aposentadoria de servidores não é?
- Não pagar dízimo é roubo, mas negociar e pegar dinheiro de investigados por fraudes bilionárias não é?
- Não pagar dízimo é roubo, mas comprar mansão de R$ 6 milhões sem origem comprovada, segundo denúncias da imprensa, não é?
- Não pagar dízimo é roubo, mas receber R$ 62 milhões para filme que nunca apareceu em cinema algum não é?
Qual é o interesse desses líderes por Flávio? Almas? Crescimento da igreja? Ou mudança da estrutura constitucional para favorecimentos financeiros?
Quem é Flávio, recém-batizado nas águas — ordenança bíblica à igreja —, que agora louva nos púlpitos, faz orações e ocupa o altar das maiores denominações do Brasil? Qual é a sua igreja? Quem é o seu pastor? Por que seu comportamento humano e suas atitudes políticas são anistiados no tribunal dos líderes evangélicos?
Será que ainda estamos vivendo o tempo de pausa das profecias de Daniel ou já sob o domínio do Anticristo?
Por que tanto amor a Flávio? Não é por defesa dos valores da família, claro que não. Basta ver a história do clã e a vida que, segundo denúncias da imprensa, Flávio leva. O amor é outro: a Lei 14.057/2020, sancionada pelo ex-presidente Bolsonaro, impediu a cobrança de R$ 1,5 bilhão de multa imposta às igrejas cujas receitas — dízimos e ofertas — foram desviadas para compra de jatinhos, helicópteros, fazendas, mansões e viagens internacionais. Disso, o dizimista não sabe. A Lei 14.057 declarou nulas essas autuações. E depois veio o Ato Declaratório Interpretativo nº 1, de 2022, editado na véspera da eleição, que carimbou que tudo isso era prebenda e não salário, portanto, isento de impostos.
Não é zelo pela obra de Deus, é blindagem financeira. Os mesmos irmãos que criticam seus líderes por mistura política, práticas desleais, cantores e pregadores que cobram cachês caros para se apresentarem nas igrejas são os mesmos que apoiam Flávio Bolsonaro, candidato dos seus líderes. A crítica perde a razão de ser.
Espero estar errado, mas o que vejo é bem semelhante ao erro de 313 d.C., quando Constantino desceu do cavalo, entrou na igreja e a igreja achou que tinha ganho o Império, mas foi o Império que ganhou a igreja.







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