Por Benedito Dias
Foi-se o tempo em que a igreja evangélica representava a paz. Se Cristo aparecesse por aqui hoje, seria torturado de novo — não pelo Império Romano, mas por um imperialismo que se diz cristão e que idolatra homens defensores da barbárie.
Foi de mansinho, com sapato de algodão, que o diabo entrou nos templos para destruir a fé e a comunhão ensinadas no Salmo 133. Davi deve estar se revirando no túmulo, e o apóstolo João de caneta na mão para escrever um novo alerta às igrejas que já não leem mais a carta enviada a Éfeso: “…vocês não me amam como me amavam no princípio. Lembrem do quanto vocês caíram! Arrependam-se… senão, tirarei o candelabro de vocês…”. A igreja de Éfeso foi elogiada por rejeitar a doutrina dos nicolaítas — a mistura —, mas foi repreendida por abandonar o amor. Esse cuidado é crucial: a falta de amor invariavelmente dá lugar ao ódio.
O diabo agiu tal qual em 313 d.C., quando, por uma canetada do imperador Constantino, a igreja se aliou ao Estado e passou a ocupar cargos no governo. Logo se corrompeu, instituindo o balcão de negócios: venda de lotes no céu, indulgências, pedaços da cruz e o pano do Santo Sudário — barganhas que a enriqueceram, mas a distanciaram de Deus.
Sem precisar retomar o início do evangelho da prosperidade (que passa longe do de Jesus) e focando nos novos ditames a partir de 2017, a igreja no Brasil escancarou as portas para mensagens estranhas ao altar. Os sermões da cruz deram lugar aos da espada; os ensinamentos da paz foram trocados pela defesa das armas; e a palavra de perdão, pelo discurso de ódio. A mentira substituiu a verdade.
Em 1986, participei de uma campanha política em que empunhamos a bandeira de que os evangélicos precisavam eleger representantes para a Assembleia Nacional Constituinte. Poucos se elegeram, mas os que chegaram contribuíram para a elaboração de uma Constituição republicana que respeita a fé cristã e não cria embaraços ao funcionamento dos templos. O próprio preâmbulo da Carta Magna não esqueceu que Deus é soberano.
Aos poucos, a igreja tomou consciência, elegeu bancadas e formou frentes parlamentares. Mas cometeu um erro fatal: a Frente Evangélica no Congresso nunca se uniu para combater a pobreza — embora a igreja seja majoritariamente formada por pobres. Nunca defendeu a educação pública de qualidade, sabendo que a maioria dos fiéis não pode pagar escola particular. Tampouco lutou pelo fortalecimento do SUS, esquecendo que o povo não tem acesso a planos de saúde. Isso é coerente com o Evangelho de Jesus, que sempre priorizou os necessitados?
Em vez disso, a bancada focou no populismo. A narrativa propagada era de que a esquerda fecharia igrejas, imporia banheiros unissex nas escolas e proibiria a liberdade de culto. Ameaçar uma cláusula pétrea constitucional só faz sentido para quem em menos de dois neurônios. Foi nessa esteira que o “pássaro” Bolsonaro, chocado no ninho da Frente Parlamentar Evangélica, criou asas. Sua trajetória de soldado rebelde, capitão da reserva e deputado defensor de golpe, pena de morte e tortura foi solenemente ignorada. Ao chegar à Presidência, montou uma engrenagem contra as instituições democráticas, criando uma rede de narrativas capaz de soterrar os fatos.
A igreja se deixou levar e agora vive o maior mar de desmoralização do século. A sociedade, que antes a enxergava como referência ética, hoje a vê apenas como trampolim eleitoral.
O diabo entrou travestido de defesa da pátria, da família e até de Deus. Faltou aos crentes a percepção elementar do “vigiai”. O resultado prático dessa cegueira ficou evidente no pleito de 2026, com a esmagadora derrota de candidatos identificados com a história evangélica tradicional:
- Em São Paulo: A igreja rejeitou nomes de fala moderada, como Cezinha de Madureira, Oseias de Madureira, Elias de Madureira e Gilberto Nascimento, para abraçar o discurso duro e vingativo do influenciador Lucas Pavanato.
- O Missionário R. R. Soares também viu a doutrina bolsonarista atropelar a lealdade dos fiéis, que rejeitaram seus filhos Davi e Daniel Soares em SP, e Filipe e Marcos Soares no Rio. Lucas Flores e Sueli Gonçalves, da Igreja do Evangelho Quadrangular, tampouco se elegeram.
- No Rio de Janeiro: Foram rejeitados nomes históricos como Marcelo Crivella e Otoni de Paula.
- Em Minas Gerais: Gilmar Machado foi atropelado por Nikolas Ferreira em Uberlândia, que colheu 101 mil votos destilando seu estilo agressivo sobre uma fatia expressiva do eleitorado evangélico.
- Em Mato Grosso: A igreja rejeitou Vitório Galli. A paz perdeu o valor; a ordem agora é o confronto.
- Em Goiás: Ficaram pelo caminho nomes como João Campos, Isaac Martins, Aava Santiago, Welton Lemos, Valderlan Cardoso e Gustavo Mendanha. Derrotados não por falta de apoio dos pastores e líderes locais, mas por vozes externas extraídas da cartilha da seita.
- No Pará: Todos os candidatos evangélicos de discurso moderado foram varridos e perderam a eleição para nomes que invadiram as igrejas com a bandeira da vingança. A única e rara exceção foi Raimundo Santos, eleito deputado federal. De família cristã, evangélico histórico, humilde e de tom moderado, ele foi salvo, sob a graça de Deus, pela sua sanfona e pela música “Eu Preciso de um Milagre”. Fora esse caso isolado, o cenário paraense é a prova cabal de como o bolsonarismo destruiu a unidade cristã.
- Em Santa Catarina: O pastor Ismael dos Santos (PL) foi massacrado por colegas de ministério só porque votou “sim” pela aprovação da MP do “Gás do Povo”. A alegação absurda era de que a proposta era comunista. Eleito em 2022 com 110 mil votos, teve sua votação reduzida para 74 mil. Quem tragou o eleitorado de Ismael? Ninguém menos que Júlia Zanatta (PL), eleita com 560 mil votos — a mesma que orientou o voto contra a MP do Gás. Na extrema-direita, não basta ser de direita: tem que saber odiar.
Poderia listar centenas de outros candidatos evangélicos pelo país. A grande maioria dos que saíram vitoriosos trazia na bagagem o tom da vingança.
O diabo usou sapatinho de algodão e suas pisadas macias não foram percebidas. A igreja montou um palanque no púlpito e trocou a mensagem da cruz pela beligerância. Na Idade Média, foi necessária a Reforma Protestante para reconstruir o altar. Agora, só a intervenção divina para livrar a igreja atual da mistura nicolaíta, da doutrina de Balaão e da imoralidade de Jezabel.
O bolsonarismo virou seita. Os pastores perderam a liderança — seja por outorga voluntária, seja por tomada à força. Hoje, para essa parcela da igreja, Jair Messias Bolsonaro tornou-se o único líder incontestável.









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