Por Benedito Dias
O populismo sempre foi característica de político populista. Gastei meus ouvidos ouvindo promessas populistas e vendo o não cumprimento de cada uma delas. Erro político? Nem sempre. Às vezes os freios do poder não deixam a impressora funcionar.
A gente costuma imaginar coisas que na prática são impossíveis de acontecer: querer que o tempo volte pra gente viver de outro jeito, ou estar em dois lugares ao mesmo tempo, ou querer que o filme Dark Horse mostre cenas da trajetória política de Jair Messias Bolsonaro desde sua indisciplina no Exército, seus 28 anos de mandato parlamentar como autor de apenas dois projetos de lei inacabados, e suas repulsas à mulher, gay, negro e índio. O que a gente, ou eu nunca imaginei, foi ver o sagrado virar santinho eleitoral.
No meio evangélico é comum ouvir: “O Brasil é do Senhor Jesus!” O sentido que dão é de clube fechado: um Brasil sem paganismo, sem ateísmo, sem os “ismos”. Bobagem. O Brasil é de Jesus não por decreto de Brasília, mas por escritura do Céu. Salmos 24:1 é categórico: “Do Senhor é a terra e a sua plenitude”. Deus não precisa de cartório. Ele tem a matrícula desde Gênesis.
Aí vem o devaneio. Flávio Bolsonaro, o Zero Um, o mesmo que quando baixa o espírito imperial diz “minha polícia”, “meu exército”, “meu Brasil”, resolveu doar a estrutura do Brasil para Jesus. Fenomenal.
O bicho pegou. A Igreja Católica protestou: “Vai cassar o título de Padroeira de Nossa Senhora Aparecida?”
É nítido que sopraram no ouvido dele: ‘Prometa isso e isso te fará presidente!’ Mero engano. O Brasil já é do Senhor Jesus. A China é, a Argentina também. A Terra toda! Não tem essa de Terras Raras, Vale do Silício, Maracaibo, Campo de Ghawar na Arábia, Bacia de Campos ou Pré-sal. Não tem essa de ‘aqui é de fulano, lá é de beltrano; esse país é de Deus, aquele lá é do diabo’. Não, é tudo dEle: ricos e pobres, negros e brancos, nobres e súditos. Um dia, todos se dobrarão para reconhecer que Ele é o Senhor de todos e dono de tudo.
Dar o Brasil pra Deus é como dar a Rede Globo para a família Marinho, o Carrefour para a família Moulin ou a Leroy Merlin para os Mulliez. Já é tudo deles. Você não doa o que já tem dono
A fala do Flávio fez conexão com um projeto de lei antigo do ex-deputado Professor Vitório Galli (Mato Grosso), que retirava de Nossa Senhora Aparecida o título de PADROEIRA DO BRASIL. Vitório Galli é evangélico de direita, bolsonarista de carteirinha e apoiador do Flávio Bolsonaro. Foi fácil fazer a conexão que explodiu nas redes sociais e foi parar no STF.
E aqui vai a verdade que o púlpito precisa dizer:
Deus não quer que você dê o Brasil pra Ele. Ele quer que você pare de entregar o que não é seu para os outros. Ele quer que você respeite a soberania nacional. Ele quer que você pare de sinalizar para o Trump que vai entregar o Brasil para os EUA.
Ele quer que você diga para o seu irmão, que foi para os Estados Unidos se conluiar com Marco Rubio para perseguir o Brasil e os brasileiros, que pare de ser traidor.
Deus não precisa que você dê o Brasil pra Ele. Ele precisa que você pare de tomar o Brasil do povo em nome dEle. O Brasil não precisa de um novo dono no céu. Precisa de um bom síndico na terra, que não roube a taxa do condomínio e não venda o prédio para o vizinho do norte.
No fim, a teologia é simples: Deus continua sendo dono de tudo. E nós continuamos com a conta por administrar tão mal o que é dEle.









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