ÊH, MENDONÇA! VOCÊ É OU NÃO É TERRIVELMENTE EVANGÉLICO?

Benedito Dias

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Desconfiar não é pecado, mas julgar, é. Por isso, vou desconfiar. Aliás, muita gente no Brasil está desconfiada de que o ministro André Mendonça — nosso irmão em Cristo, apelidado pela senadora Damares Alves de “terrivelmente evangélico” — está, na condição de ministro da Suprema Corte, fazendo campanha política para Flávio Bolsonaro. Ué, e pode?

Será que o ministro não está confundindo Filipenses 4:13 — “Tudo posso naquele que me fortalece” — com “tudo posso no STF”? Não é possível! O ministro é um exegeta e jamais aplicaria esse versículo fora do contexto referido pelo apóstolo Paulo. Ministro, ministro! Todos na Suprema Corte podem errar um pouquinho, um pouco ou um poucão, mas Vossa Excelência, não. Foi Vossa Excelência mesmo quem disse que não poderia errar.

Ninguém no STF é anjo. Mas a prática deliberada da parcialidade, com a inobservância de requisitos primordiais da Justiça e, pior, por interesse eleitoral, seria algo grave.

Vorcaro está com a República na palma da mão. É ele quem, pelo menos neste roteiro, parece definir quem presta e quem não presta neste país, tendo ele próprio na cabeça da lista. A despeito de todo o aparato de fiscalização do Banco Central, o homem conseguiu montar um banco que acabou se tornando especializado em operações que hoje estão sob investigação por fraude.

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E aqui está uma pergunta que não pode ser dirigida apenas a Vorcaro: como um banco que começou sob seu controle em 2017 conseguiu chegar a esse tamanho, atravessar tantos anos e envolver operações tão complexas sem que os mecanismos de fiscalização conseguissem impedir ou detectar antes aquilo que hoje está sendo investigado?

Com apoio do então presidente Jair Messias Bolsonaro, o “Dani” — essa é a nova alcunha de Daniel Vorcaro dada pelo seu amigo quase íntimo Nikolas Ferreira, o paladino da moral — comprou o Banco Máxima, que virou Master. O Máxima era um banco falido do Sebba. Engenhosamente, e esse é um dos mistérios que a Polícia Federal ainda não desvendou, Vorcaro, aos 33 anos de idade, sem patrimônio conhecido compatível com a operação, consegue comprar um banco e virar banqueiro da noite para o dia.

O Máxima funcionou sob administração de Vorcaro durante quatro anos, de 2017 a 2021, quando mudou de nome para Master.

Para tornar público aquilo que alguns menos informados — ou convenientemente informados — fazem questão de não saber, Vorcaro, sagazmente, conseguiu envolver todo mundo: oportunistas, ambiciosos e avarentos — inclusive o clã Bolsonaro, no caso Master.

O senador, candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, conseguiu junto a Vorcaro R$ 61 milhões para financiar o filme Dark Horse — O Azarão. Um filme que, até agora, virou notícia muito antes de virar filmen. O Dark Horse virou roteiro antes das filmagens. São R$ 61 milhões cuja destinação e origem continuam provocando questionamentos. Cadê o filme, cadê o dinheiro? O Mendonça sabe disso.

É neste contexto que Mendonça é questionado.

Ele quer virar Xandão sem xingamentos. Xandão, o homem que colocou golpistas na cadeia, é odiado pela extrema-direita e aparece nas redes sociais como uma espécie de figura do diabo. Mendonça parece querer incorporar a coragem de Xandão, mas não quer carregar o peso da cruz. Xandão é ovacionado por botar golpistas na cadeia, mas é cuspido por quem acha que o 8 de janeiro foi apenas um passeio no parque.

Mendonça quer a fama do Xandão conjugada com a alma jurídica de ministros como Moreira Alves, Sepúlveda Pertence, Teori Zavascki, Marco Aurélio Mello e dos atuais Fachin e Cármen Lúcia – ministros de atuação marcante na Suprema Corte – mas não quer o ônus do cargo.

A ideia de justiça é o que deve interessar a um ministro. Mas, para isso, é preciso ser imparcial.

Até agora, estava tudo bem. Mas parece que o 3 de outubro está mexendo com a cabeça do nosso Mendonça.

Mendonça quer ser grato ao Bolsonaro pela indicação à Suprema Corte. Uai, nesse caso, ele não foi indicado pela competência, mas pela conveniência.

Gratidão é uma virtude, mas também é justiça. Ninguém pode ser grato praticando injustiça.

Ainda assim, o caso Master está em boas mãos, mas não únicas. A ministra Cármen Lúcia também reúne condições e respeitabilidade para uma missão dessa envergadura. Mendonça, apesar de não ser de se jogar fora, está prejudicado pela proximidade política que alguns enxergam entre ele e o clã Bolsonaro, além da citação de seu nome envolvendo encontro reservado em seu instituto com Vorcaro — personagem central das graves suspeitas que cercam o caso.

Que leitura se faz, ou que pelo menos deveria se fazer neste momento? O Master não apareceu do nada. Sua trajetória passou pelo Banco Máxima, pelo crédito consignado, por operações envolvendo ativos e por negócios que hoje estão sob investigação. Também há questionamentos sobre aplicações de recursos de institutos de previdência em operações relacionadas ao banco.

É aqui que a coisa fica séria.

Porque uma coisa é um banco ter correntistas, receber salário, pagar conta, financiar carro e vender cartão. Outra é um banco operar em um universo financeiro no qual entram grandes volumes de dinheiro, ativos de risco, precatórios, créditos e recursos de fundos previdenciários.

E, quando esse dinheiro pertence aos servidores públicos, a pergunta deixa de ser apenas financeira.

Quem fiscalizou o Master?

O Master passou anos comprando títulos podres com dinheiro de institutos de previdência de servidores públicos. Ninguém viu nada.

E mais:

Vorcaro não explica satisfatoriamente sua trajetória empresarial e a construção do império que o levou ao mundo dos banqueiros: o que ele fazia antes? É de família rica? Recebeu herança milionária? Onde conseguiu dinheiro para comprar um banco? Isso não é acusação. É uma pergunta que qualquer investigação séria pode — e deve — fazer. O Mendonça sabe disso.

O Mendonça sabe que a história do Master não começou ontem. Sabe das relações políticas que orbitam o caso, sabe quem esteve próximo de quem e sabe que há muito dinheiro envolvido.

Sabe também que o Master estava em negociação para ser comprado pelo BRB, no governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e que se tratava de uma trama envolvendo políticos de diferentes grupos, a maioria bolsonarista.

E sabe, ainda, que o Dark Horse recebeu R$ 61 milhões de Vorcaro por meio de uma operação que envolve diretamente Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência.

Então vem a pergunta:

Por que o Mendonça quer pegar todo mundo, menos o Flávio?

Que isso?

Rio agora ou rirei depois?

Mendonça, pelo amor de Deus, vá para cima de todo mundo!

Se há suspeita contra Lula, investigue Lula.
Se há suspeita contra Bolsonaro, investigue Bolsonaro.
Se há suspeita contra Flávio, investigue Flávio.
Se há suspeita contra Xandão, investigue Xandão.
Se há suspeita contra qualquer ministro do STF, investigue também.

Se há indícios de suspeição para julgar o caso, renuncie.

Mas não escolha o lado de quem deve ser investigado.

Seja um Xandão melhorado! Macho, correto, firme — mas, sobretudo, imparcial.

Você não deve nada a ninguém.

Sua nomeação para o STF contou com forte apoio do segmento evangélico. E justamente por isso, ministro, cuidado!

Porque o Brasil não precisa de um ministro evangélico que seja de direita, de esquerda ou de centro.

O Brasil precisa de um ministro justo.

E justiça, ministro, não combina com torcida.

Seja sábio nos termos de Provérbios de Salomão. Não seja imprudente como Balaão. Não espanque a jumenta. Jumenta espancada fala.

Tenha cuidado!

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MENDONÇA, VORCARO E A IMPARCIALIDADE:  PRECISO PARECER JUSTO

MENDONÇA, VORCARO E A IMPARCIALIDADE: É

Não basta ser justo. Para quem ocupa uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, é preciso também parecer justo. E é justamente por isso que o encontro entre o ministro André Mendonça e Daniel Vorcaro merece algumas perguntas.

Calma! Ninguém está dizendo que um ministro do STF não possa conversar com um empresário. Pode. Também não estou afirmando que o simples fato de terem se encontrado prove qualquer irregularidade. Não prova.

Mas, ministro, convenhamos: o contexto importa. E muito.

O senhor confirmou ter recebido Vorcaro em março de 2025, no Instituto Iter. O encontro não ocorreu em uma audiência pública, com advogados, Ministério Público ou PGR à mesa. Foi uma conversa reservada. E hoje existem gravações e mensagens que trouxeram o encontro para o centro do debate público.

Aí vem a pergunta que não quer calar: se o senhor recebeu Vorcaro, por que não considera prudente deixar a relatoria do caso para outro ministro?

Não seria uma confissão de culpa. Não seria admitir qualquer irregularidade. Seria apenas uma demonstração de prudência.

Afinal, o senhor não está julgando um sujeito qualquer. Está lidando com um personagem que hoje se encontra no centro de gravíssimas investigações. E justamente por isso, quanto maior a responsabilidade do julgador, maior deve ser o cuidado para que nenhuma sombra de dúvida paire sobre sua imparcialidade.

Aliás, há uma regra de ouro na Justiça: não basta ser imparcial; é preciso preservar a aparência de imparcialidade.

Imagine, ministro, um cidadão comum entrando no seu gabinete para conversar sobre um assunto que, meses depois, chega à sua mesa para ser julgado. O senhor realmente acredita que esse cidadão não teria o direito de perguntar: “Será que não seria melhor outro ministro cuidar disso?”

Eu perguntaria.

E perguntaria sem acusar ninguém.

Porque, se o senhor está absolutamente tranquilo quanto à sua imparcialidade, por que não dar ao caso a máxima transparência?

Afaste-se.

Entregue a relatoria a outro ministro.

E pronto.

A dúvida morre ali.

Isso não diminuiria Vossa Excelência. Ao contrário. Engrandeceria.

Ministro, quem não deve nada a ninguém não precisa ter medo de dar um passo para trás. Às vezes, a maior demonstração de autoridade é justamente abrir mão da autoridade quando a circunstância recomenda cautela.

E tem mais: se Vorcaro ainda não era investigado quando o encontro aconteceu, como já foi alegado, isso precisa ser considerado. Mas hoje a situação é outra. O que veio depois transformou aquele encontro em um fato politicamente e institucionalmente relevante.

Então, ministro Mendonça, não estou pedindo que condene Vorcaro. Também não estou pedindo que o proteja.

Estou pedindo apenas uma coisa: seja imparcial. E faça questão de que todos possam enxergar essa imparcialidade.

Porque Justiça não pode ser apenas feita.

Ela precisa parecer que está sendo feita.

E, se o senhor quiser realmente ser um “Xandão melhorado”, comece por aí.

Faça o que precisa ser feito.

E, pelo amor de Deus, ministro: não deixe o pequi de Goiás cair antes da hora!

E aqui chegamos a uma pergunta que, sinceramente, não quer calar: se o senhor se encontrou com Daniel Vorcaro, por que não considera a possibilidade de se declarar suspeito e deixar a relatoria do caso para outro ministro?

Calma! Não estou dizendo que ministro não possa conversar com empresário, investigado ou qualquer cidadão. Pode, evidentemente. O problema é outro: a circunstância do encontro, a proximidade e aquilo que veio à tona depois.

O senhor recebeu Vorcaro, em março de 2025, no Instituto Iter, fora da agenda oficial. Hoje sabemos que esse encontro foi articulado por terceiros e que existem áudios e mensagens sobre a aproximação. O senhor diz que apenas o ouviu. Está bem. Então, melhor ainda: se não houve nada além disso, qual seria o problema de entregar a relatoria a outro ministro?

Nenhum.

Ao contrário: seria uma demonstração de grandeza.

Porque juiz não precisa apenas ser imparcial; precisa também preservar a aparência de imparcialidade. A Justiça não pode deixar no cidadão a impressão de que quem julga tem qualquer proximidade com quem está sendo julgado.

E aqui faço outra pergunta ao nosso “terrivelmente evangélico”: se o senhor entende que não existe nenhuma relação capaz de comprometer sua imparcialidade, por que não se afasta voluntariamente?

Não seria uma confissão de culpa. Não seria admitir irregularidade. Seria simplesmente dizer: “Para que ninguém tenha dúvida sobre a minha isenção, outro ministro julgará.”

Isso, ministro, não diminuiria Vossa Excelência.

Engrandeceria.

E se o senhor pode investigar todo mundo, pode também abrir mão de investigar alguém que esteve sentado diante do senhor numa reunião reservada. Não porque esse encontro prove qualquer irregularidade — não prova —, mas porque a prudência de um magistrado começa justamente onde termina a aparência de proximidade.

Afinal, ministro, justiça não pode apenas ser feita. Ela precisa parecer que está sendo feita.

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